«A Vida é bela»

Para encerrar os posts dedicados à Memória do Holocausto, deixo-vos com este excerto de um dos filmes mais belos e inspiradores sobre a II Guerra Mundial, tendo ganho  mesmo três óscares em 1997 para o melhor filme estrangeiro, melhor ator protagonista e melhor banda sonora.

Este filme conta-nos a história de Guido, um judeu italiano, interpretado por Roberto Benigni, que para proteger o seu filho e minorar os efeitos de viver num campo de concentração, inventa um jogo onde a criança julga estar a participar, introduzindo muitos momentos de humor que lhe ocultam o horror que os espera. Transmite-nos pois uma mensagem de esperança, de amor profundo entre um pai e um filho, que prefere brincar com a situação do que lhe revelar a crueldade humana e do que o ser humano é capaz de fazer, quando dominado pelos motivos da guerra e da dominação.

 

Diário de Anne Frank

«Quando escrevo sinto um alívio, a minha dor desaparece, a coragem volta».

Anne Frank

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Ainda a propósito da evocação do dia da Memória das vítimas do Holocausto, assinalado no dia 27 de Janeiro, data em que as tropas soviéticas irromperam no campo de concentração de Auschwitz para libertar os judeus que lá se encontravam à espera da morte, gostaria de enaltecer o exemplo de coragem de uma menina, que embora não tenha sido salva, representou  a esperança e um lado mais ingénuo daqueles dias marcados pela guerra e pela barbárie, falo obviamente de Anne Frank.

Anne, nascida a 12 de junho de 1929, era uma jovem judia, oriunda de Frankfurt, que se refugiou com a sua família na Holanda para escapar às perseguições nazis, mais concretamente em Amesterdão, escondendo-se nuns anexos de um edifício comercial, juntamente com outras quatro pessoas, sendo protegidos por pessoas generosas e destemidas, como Miep Gies, Victor Kugler, Johannes Kleiman e Bep Voskuijl que garantiram a sobrevivência destes judeus durante cerca de dois anos, de 1942 a 1944.

Em agosto de 1944, a família acabara por ser denunciada aos nazis, sendo transportados para campos de concentração. Ironicamente, tanto Anne, como a sua irmã Margot Frank, acabariam por falecer, possivelmente pelas difíceis condições em que viviam, agravadas por um surto epidémico, em fevereiro de 1945, pouco tempo antes da rendição da Alemanha.diario-aberto

Mas o que fez com que esta rapariga se destacasse entre os milhões de judeus, e fizesse dela uma verdadeira referência de coragem? O ato de escrever, exorcizando os demónios que vivia, os medos que a circundavam constantemente e os perigos que a espreitavam a todo o momento. Assim, transformou a prenda que recebera aos 13 anos, o seu diário, que designa carinhosamente de “Kitty”, num registo  precioso, onde documentou num primeiro momento o seu dia a dia, os avanços das tropas alemãs, as restrições e humilhações a que os judeus estavam sujeitos, e depois já no anexo, num exercício quase diário de catarse, que lhe permitiu manter a sanidade mental, num ambiente verdadeiramente claustrofóbico e psicótico, pautado pelo medo de serem descobertos.

Através da leitura deste diário vemos uma menina a transformar-se em mulher, analisando as suas relações familiares, nomeadamente sobre a sua mãe, Edith Frank, com quem tinha uma relação tensa, típicas de uma adolescente e o amor que começa a nascer entre ela e Peter, um outro rapaz que vive no anexo.

Mas, a leitura do diário faz-nos também pensar numa menina que foi obrigada a crescer rápido demais com uma plena consciência do que se passava à sua volta:

«Quando estou deitada na minha cama, cama tão quente e confortável, enquanto as minhas queridas amigas sofrem lá fora, talvez expostas ao vento e à chuva, mortas até, sinto-me quase má. Tenho medo de pensar em todas as pessoas às quais tanta coisa me liga e ao lembrar-me de que estão entregues aos mais cruéis carrascos que a história dos homens já conheceu. E tudo isto só por serem judeus!»

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A escrita permite a Anne encontrar uma motivação acrescida para continuar a viver, sonhando vir a ser jornalista e a viver da escrita, questionando se terá mesmo talento para isso.

«Mas, agora sinto-me feliz por saber ao menos escrever. E se não tiver talento suficiente para escrever livros ou artigos de jornal, enfim sempre me restará escrever para meu próprio deleite.

Quero vir a ser alguém. Não me agrada a vida que a srª van Daan e todas essas mulheres que trabalham para, mais tarde, ninguém se lembrar delas. Além de um marido e de filhos, preciso de mais alguma coisa a que preciso de me dedicar! Quero continuar a viver depois da minha morte. E por isso estou tão grata a Deus que me deu a possibilidade de desenvolver o meu espírito e de poder escrever para exprimir o que em mim vive. Quando escrevo sinto um alívio, a minha dor desaparece, a coragem volta». In:  Diário de Anne Frank, p.265.

Estas palavras de Anne Frank são verdadeiramente impressionantes, quase arrepiantes, pois não tendo tido a ocasião de realizar o seu sonho em vida, as suas palavras ainda ecoam, tornando-se verdadeiramente imortais. Tornou-se na escritora que apenas com um diário, onde se exprimiu com a genuinidade da sua idade, fez o mundo comover-se com a sua história de vida, sendo um dos livros mais lidos e extraordinários do séc. XX.

O Diário de Anne Frank

Aconselho pois este livro a todos quantos queiram conhecer mais sobre esta Anne Frank, bem como a visitar o local onde viveu, em Amesterdão e se deixem contaminar com a sua força e jovialidade.

Dia Internacional da Lembrança do Holocausto 

Assinala-se hoje dia 27 de janeiro, o dia Internacional da lembrança das vítimas do Holocausto, do genocídio que dizimou a vida a milhões de judeus, ciganos e milhares de homossexuais durante a II Guerra Mundial.

Neste sentido, não poderia deixar de aqui fazer essa referência, pois este blogue inspirado no amuleto dos caçadores de sonhos, serve não só para atrair os sonhos mas também para espantar os pesadelos. E este foi sem dúvida um dos maiores pesadelos da humanidade.

Mas nestes próximos posts, o que se pretende não é tanto falar da desgraça vivida nesses tempos, mas antes enaltecer a coragem e o amor de algumas das personagens da guerra que se destacaram pela sua bravura e pelo seu heroísmo e fibra, ou exemplos positivos dentro daquela conjuntura.

Gostaria de referenciar por isso a figura de Aristides Sousa Mendes, que foi para mim um homem de consciência e com uma moral elevada, face ao drama vivido por milhares e milhares de pessoas. Acima de tudo foi um homem que não ficou indiferente perante os problemas dos outros.

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 Ainda assim, Aristides de Sousa Mendes é um vulto da nossa história que praticamente passa desapercebido. No entanto, foi enorme a sua obra, o seu empenho na defesa de vidas humanas, o seu valor enquanto homem e português. Tudo porque teve a coragem de desobedecer ao presidente do conselho e reger-se por valores bem mais altos, o da consciência e o da compaixão. Quantos teriam arriscado, como Arisitides, perder as benesses, as honras de estado e a opulência em que os cônsules viviam, para salvar milhares de judeus, cuja sentença de morte estava ditada por Hitler nos campos de concentração. Em vez de obedecer a Salazar que tinha proibido os vistos a toda essa «gentalha», como eram apelidados, Aristides foi mais longe e como cristão devoto que era usou o bom coração que tinha para se guiar em vez das leis. Depois de transgredir e de ter salvo tanta gente da barbárie, Arisitides foi destituído do cargo, aposentado precocemente, vivia da misericórdia dos amigos e da comunidade judaica em Lisboa que o alimentava a ele e à sua numerosa família. Sofreu a humilhação de querer defender a sua honra e o seu nome em vão. O estado, apesar de cristão, nunca reconheceu no seu gesto uma ação caridosa, tratando-o como um traidor da Pátria. Anos mais tarde, depois dos tempos idos da neutralidade de Portugal, algo duvidosa, Salazar cinicamente congratulou-se de ter permitido que milhares de judeus se tivessem salvo, mas nunca absolveu Aristides de Sousa Mendes, que morreu na maior das pobrezas, abandonado um pouco por todos. Passou a ser um indesejável…tendo sido reabilitado pelo Estado Português apenas em 1987.

Mas este homem, (cujo nome foi nomeado para aquele célebre concurso dos «Grandes Portugueses» exibido na RTP, e que por ironia do destino o vencedor foi o maior ditador da história contemporânea de Portugal), foi de facto um dos nossos grandes heróis, que vale a pena recordar, pois já não há no nosso país muitos homens íntegros e de palavra, como ele.

Para quem se interesse pela vida desta personalidade tão interessante recomendo a leitura de do livro «Aristides de Sousa Mendes, um herói Português», é uma biografia escrita por José-Alain Fralon, da Editorial Presença.

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«Entusiasta, generoso e aventureiro seguiu a carreira diplomática, e encontrava-se em Bordéus num tempo em que o nazismo lançara já a sua sombra sobre a Europa e o Mundo. Multidões esperavam junto ao consulado para escapar do Holocausto. Emanavam ordens do governo português para limitar a concessão de vistos, mas Aristides assinava, dia e noite, correndo contra o tempo, obedecendo a imperativos mais altos» (palavras do autor).

«Fernão Capelo Gaivota», de Richard Bach

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«Vê mais longe a gaivota que voa mais alto»

Este é o último livro da minha lista de livros mágicos com que fecho esta rubrica, para poder dar seguimento à exploração de outros temas, pois muitos mais poderiam aqui ser acrescentados. Talvez numa ou outra ocasião aqui vos fale sobre outros igualmente importantes no meu percurso de vida.

«Fernão Capelo Gaivota» é o livro ideal para trabalharmos os nossos propósitos de vida, os nossos sonhos mais ousados e persistentes que teimamos em perseguir e a fazer tudo para os realizar, com determinação e empenho, tendo como exemplo esta gaivota persistente que tudo fez para poder voar sempre mais alto.

E o que Fernão Capelo Gaivota nos ensina é que não há limites para o nosso voo, para aquilo que pretendemos fazer, quando a nossa voz interior é mais forte do que todos as outras vozes dissonantes que nos desencorajam de tentar ir sempre mais além.

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Esta é assim a história de uma gaivota que passava os dias a voar, ensaiando, experimentando, voos cada vez mais altos, contrariando os ensinamentos de seus pais, que o incentivavam a fazer voos rasos para que se alimentasse em condições. Mas Fernão Capelo Gaivota pouco se interessava por comer, nem pelos voos rasos, o que o fascinava era testar os limites de velocidade e esforçar-se até não aguentar mais, evidenciando-se desse modo do restante bando que não via com bons olhos esta obstinação da gaivota. Por ser mal visto entre os seus, chegou mesmo a interiorizar as crenças limitantes que lhe transmitiam, convencendo-se que não seria capaz de fazer melhor:

«Sou uma gaivota. A minha natureza limita-me. Se tivesse destinado a aprender tanto sobre o voo, teria mapas em vez de miolos. Se estivesse destinado a voar a alta velocidade teria as asas curtas de um falcão e comeria ratos em vez de peixe. O meu pai tinha razão. Devo voar para junto do Bando e contentar-me com aquilo que sou, uma pobre e limitada gaivota».

Certo, é que esta crença agrilhoada não se manteve muito tempo, pois a normalidade não fazia bem a esta gaivota e não tardou muito para que voltasse de novo aos seus testes de velocidade, até que um dia, excedeu todas as expectativas, voou o mais alto que conseguiu e em vez de um prémio, a sociedade em que vivia baniu-o, por se evidenciar demasiado, sendo acusado de irresponsabilidade e votado ao isolamento e à incompreensão de todos.

Esta obra é assim uma bela metáfora sobre o que pretendemos realizar, independentemente do que possam pensar ou julgar sobre nós, um hino que enaltece a nossa liberdade de voar, de não desistir do que queremos, lembrando-nos que só nós temos a chave para chegarmos onde queremos, pois como diz Richard Back neste livro «tu tens a liberdade de ser tu próprio, o teu verdadeiro eu, Aqui e Agora; nada se pode interpor no teu caminho».

«Quebrem as correntes do pensamento e conseguirão quebrar as correntes do corpo…»

«O Principezinho » de Antoine de Saint-Exupéry

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Não podia deixar de incluir nesta lista de livros mágicos, a obra mais célebre de Saint-Exupéry, que ficará para sempre eternizada, «O Principezinho».

Esta é uma bela história sobre as aventuras de um pequeno rapaz, de cabelos cor de ouro, que viaja por vários planetas, onde descobre várias personagens e muitas histórias bizarras para contar. O último planeta que conhece é a Terra, onde encontra um aviador, apeado no deserto, com o avião avariado, que é também o narrador desta história.

Na Terra o principezinho descobre que, ao contrário do que sucedia no seu planeta, o esteróide B 612, pouco maior do que uma casa, onde existia apenas uma única flor, aqui existiriam milhares de flores iguais, mas nenhuma como a sua flor especial, que por ser única merecia cuidados e uma dedicação tão grande que o levava a regá-la, a protege-la do frio e dos perigos que podiam coloca-la em risco, fazendo de tudo para que nenhum mal lhe sucedesse.

É na Terra também que o principezinho encontra uma raposa, personagem que lhe ensina o valor do amor e da amizade e lhe revela que nem sempre o mais importante é o que se vê, o que é materializável e racional, pois «o essencial é invisível aos olhos», só se sente com o coração.fox_le_petit_princebxa

É ela também quem lhe explica que a amizade merece cuidados especiais, para que tal como a sua flor, esta seja única e especial, fala-lhe da importância de nos deixarmos envolver pelo outro que entra na nossa vida, para lhe dedicarmos tempo e atenção.

«Os homens não perdem tempo a conhecer nada. Vão às lojas e compram tudo pré-fabricado. Só que como não há lojas de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo cativa-me!»

A raposa ensina o menino a deixar-se cativar e a sentir amor pelos outros, falando-lhe dos rituais de felicidade dos encontros entre os amigos, que fazem antecipar a alegria mesmo antes deles acontecerem.

«Se chegares, por exemplo às quatro horas da tarde, começarei a ficar contente logo a partir das três. Quanto mais os minutos passarem, mais feliz ficarei».

«Cativar» é nesta obra o verbo perfeito para designar o ato de tornar alguém importante nas nossas vidas, ficando nós eternamente responsáveis por aquilo que «cativamos». Neste sentido, com estas belas e simples palavras, redescobrimos o sentido mágico da amizade e da responsabilidade que devemos assumir, quando incluímos alguém na nossa vida, devendo nutrir esse elo, como a flor do principezinho para que ela cresça, floresça e se mantenha sempre viçosa.

Estes ensinamentos que qualquer criança entende, nem sempre são fáceis de aplicar e de viver pelos adultos, que desistem de se doar aos outros, de estar presentes, de acreditar na entreajuda e no espírito solidário. Por estes motivos, este livro é intemporal, pois os seus ensinamentos são sempre atuais, podendo ver neste menino ingénuo a criança que ainda existe em nós, e que nem sempre escutamos. Afinal, nem tudo é visível com os olhos, mas sentido com o coração.

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«A história de uma gaivota e do Gato que a ensinou a voar», de Luis Sepúlveda

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Esta é a história de Zorbas, um gato preto, grande e gordo, que vivia num apartamento, perto do porto de Hamburgo e da sua aventura durante as quatro semanas em que a sua família adotiva se ausentou para férias.

Esperava-o dias de descanso a apanhar sol na varanda, onde seria o dono do apartamento, absorto nas suas rotinas, mas bastou-lhe apenas umas horas em solidão para que algo lhe tivesse acontecido. Uma gaivota, apanhada por uma maré negra de petróleo, em completa agonia caíra-lhe na varanda e o gato, que deveria ter os naturais instintos de felino, cede perante o desespero da ave e oferece-se para a ajudar. Como o estado da gaivota é mesmo muito grave e a morte iminente, ela pede a Zorbas dois favores ainda maiores do que o seu resgate, tornando o gato guardião do seu ovo, após o seu desaparecimento, e o responsável por ensinar a gaivota,que nascerá daquele ovo, a voar. E é o que sucederá, com a ajuda dos amigos do gato Secretário, Sabetudo, Barlavento e Colonello.

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Trata-se na verdade de uma bela fábula, sobre o valor do amor incondicional pelos outros, mesmo quando as diferenças são abismais, pelo empenho e dedicação em sermos e darmos o melhor de nós, mesmo quando o que nos pedem é aos nossos olhos completamente impossível. Mais um livro que nos apela à voz do coração, que sim, só essa nos permite sair dos nossos limites prováveis, mostrando que quando há vontade, até um gato pode ensinar uma gaivota a voar.

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Esta obra é um eco de esperança, de humildade, de poesia, que sempre me apaixonou, não só porque os protagonistas são gatos, dos quais sou absolutamente fã, mas porque restaura em mim a fé, a coragem, a compaixão pelo meu próximo, a integração das diferenças, a descoberta de sentidos e de conexões completamente improváveis, a busca de conhecimento e de soluções para áreas e problemas que não domino. Neste sentido, uma das mensagens deste livro para mim é que se necessário for, para poder ajudar o meu próximo, devo sair da minha “zona de conforto”, enfrentar desafios internos e externos para produzir excelentes resultados, entregar-me de corpo e alma na minha missão, tal qual Zorbas e os seus amigos fizeram com Ditosa, a gaivota bebé que cresceu e foi preciso ensinar a voar.

«O Alquimista» de Paulo Coelho

«É justamente a possibilidade de realizar um sonho que torna a vida interessante», Paulo Coelho: in «O Alquimista»

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O «Alquimista» é um livro que li há muitos anos atrás, mas pelo qual senti um enorme chamamento, utilizando uma das suas frases mágicas, sempre que queria que alguma coisa muito importante se realizasse na minha vida: «Quando alguém quer uma coisa, todo o Universo conspira para que possa realizá-la».

Este livro é uma história sobre sonhos, sobre o significado da vida que se persegue e pelo qual se luta. O protagonista desta narrativa chama-se Santiago, um jovem pastor, que percorre os vales da Andaluzia com um rebanho de ovelhas, pensando em como gostaria de viajar e de rever a filha de um comerciante, pela qual se tinha encantado.

Certo dia Santiago tem um sonho que se repete e lhe indica a existência de um tesouro escondido nas Pirâmides do Egito. Determinado a não fazer caso do sonho, acaba por encontrar o rei de Salém, na cidade de Tarifa, que lhe fala da importância de se cumprir a Lenda Pessoal, que consiste naquilo que sempre se desejou fazer, apelando para que Santiago também cumprisse a sua.

Nesse momento, Santiago convence-se que tem mesmo de viver a sua Lenda Pessoal e caminhar em direção ao seu tesouro, vende tudo o que tem e parte para Tânger, onde inicia uma venturosa jornada, até às pirâmides do Egito, encontrando pelo percurso o amor da jovem Fátima que lhe enche o coração.

Trata-se de uma história que nos demonstra que o nosso maior tesouro não é o que encontramos fora de nós, mas o que temos dentro, sendo necessário para isso ouvir o nosso coração e o que ele nos sussurra: «está atento ao lugar onde chorares, porque nesse lugar estou eu, e nesse lugar está o teu tesouro».

Paulo Coelho nesta obra poética e extremamente simples traduz então a importância transformadora da alquimia, sendo que aqui o seu principal sentido não é transformar metal em ouro, mas sim colocar o coração no cerne das nossas escolhas e percursos pessoais, apelando a que o devamos escutar mais e estar em maior sintonia com o nosso interior.

«O coração é um cofre escondido, porque se soubermos onde ele está, sabemos onde estará o nosso tesouro», Paulo Coelho in: «O Alquimista»

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«O Monge que vendeu o seu Ferrari: Uma  Fábula Espiritual», de Robin Sharma

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Li este livro há uns meses e posso garantir a quem o queira ler que ele tem um verdadeiro poder transformador, levando-nos a questionar o que andamos nós a fazer das nossas vidas, arrastados pelos deveres e obrigações, pelas responsabilidades, pelo stress dos dias, consumidos pelo que temos de fazer, investindo mais nos bens materiais, do que na nossa essência.

Esta é a história de Julian Martle, um advogado de sucesso que resolvia brilhantemente  todos os casos, com uma enorme capacidade de argumentação, rico, famoso, com o mundo a seus pés, embora tivesse uma vida pessoal completamente desorganizada, sem horários, e uma vida familiar desfeita, o que lhe dava um ar abatido e muito mais velho. Contudo, aparentemente este advogado teria a vida perfeita, que todo o jovem iniciante na carreira invejaria, mas tudo mudaria no dia em que Julian Martle, vítima do ritmo frenético dos seus  dias, teve um ataque cardíaco fulminante.

O que aparentemente poderia ser um fim para este homem notável, foi na verdade o começo de uma nova história e de uma nova etapa na sua vida. Confrontado com a vida que estava a alimentar com hábitos nefastos, a ponto de encarar a morte de frente, decidiu abandonar a carreira, vender o Ferrari, a mansão e todas as suas posses e partir para a Índia numa demanda espiritual que mudaria para sempre a sua vida.

O livro relata o processo de transformação deste homem, os ensinamentos que adquiriu durante o tempo que esteve longe, junto dos sábios de Sivana,no cimo dos Himalaias, os novos hábitos que integrou na sua vida, e o modo como passou a ser alguém que transmite e inspira os outros com a sua aprendizagem, afastando-se a passos largos do homem soberbo e materialista que em tempos foi.

Regressado aos E.U.A, procura o seu colega John, que tinha aprendido consigo os segredos do ofício de advogado, e numa longa noite revela-lhe a sua transformação, a sabedoria da sua mudança pessoal, o que aprendera durante a sua expedição e o modo como passou a ter uma vida melhor e mais gratificante. Explica-lhe a importância de ter uma mente dominada, dos objetivos que é necessário estabelecer, da disciplina e determinação, do respeito do tempo, do altruísmo e do viver no presente e no agora, utilizando alegorias e símbolos que ilustram a sabedoria de cada ensinamento. John ao ouvi-lo vibra com cada palavra, como se tratasse de uma criança entusiasmada, determinado também ele a mudar a sua vida e a introduzir hábitos mais saudáveis.

Na verdade, este livro funciona não só como uma lição de vida, mas também como um instrumento fabuloso para o nosso desenvolvimento pessoal, utilizando princípios e ferramentas aplicados no coaching, como forma de potenciar pensamentos positivos e motivadores e uma mente mais limpa e organizada.

Se puderes ler este livro, estou certa que não te desiludirás e também sentirás as palavras de Julian Martle como um bálsamo inspirador.

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«Alice no País das Maravilhas» , de Lewis Caroll

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O segundo livro mágico que aqui hoje destaco é o célebre «Alice no País das Maravilhas», de autoria de Lewis Caroll, pseudónimo de Charles Dodgen, um matemático, interessado em descobrir a lógica por detrás das coisas.

Escrito no século XIX, na Inglaterra em plena época vitoriana, em 1865, este é um livro que se analisado com rigor, se pode dizer que é muito mais sobre os adultos, do que sobre as crianças. Quando o li há cerca de dois anos atrás, percebi que de facto isso é bem verdade pela profundidade de certos aspetos que estão imbricados no texto, de forma bastante subtil.

Assim, aquilo que parece ser um conto de fadas infantil, não é mais do que uma crítica social da época, questionando os padrões sociais da aristocracia, marcados por uma rigidez de costumes e falsos moralismos. Alice ao perseguir o coelho branco que corre apressadíssimo, dizendo que está atrasado, e ao cair na sua toca está também a fugir ela de uma sociedade agonizante e em declínio, iniciando aquela que será uma viagem iniciática, num plano abstrato do inconsciente, onde vai por tudo em causa e transgredir as normas convencionais. Empreende uma aventura repleta de acontecimentos, onde vai sentir profundas transformações corporais, esticando e encolhendo consoante as necessidades do momento, deparar-se com situações inacreditáveis atravessar labirintos e conhecer personagens bizarros.

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Uma das principais questões subjacentes deste livro prende-se com a identidade e o desenvolvimento pessoal, explorando-se o modo como se pode desbravar esse território, em determinadas alturas as questões implícitas do texto, em que Alice e o próprio leitor se leva a interrogar sobre «Quem sou eu?» e «que caminho devo seguir?»

Um dos diálogos mais maravilhosos do livro que sublinha esta questão da identidade é o estabelecido entre Alice e o Gato sorridente, Cheshire,  que a faz refletir, sobre as escolhas que ela precisa fazer para se encontrar.

«- Gatinho Cheshire (…) diga-me, por favor, a partir daqui, que caminho devo seguir?

– Isso depende bastante do sítio para onde queres ir- respondeu o Gato.

– Pouco me importa para onde- disse Alice.

– Então não tem importância para que lado vais – disse o Gato.»

Trata-se de um diálogo sublime, embora simples, que nada tem de infantil, demonstrando-nos bem a profundidade deste livro, pois se não soubermos qual o caminho que queremos seguir todos os outros são válidos.

Os restantes personagens são incrivelmente criativos e ricos na sua descrição subvertendo a ordem estabelecida da sociedade vitoriana, existindo um coelho sempre atrasado, um chapeleiro maluco, uma rainha déspota que grita constantemente «cortem-lhe a cabeça» – e que seria certamente uma sátira da rainha de Inglaterra-  uma lagarta filósofa, um gato um quanto cínico, o Cheshire, entre muitas outras.

É assim uma obra que nos faz questionar sobre quem somos e o que queremos atingir, com um tom absolutamente criativo e genial, sendo Alice o alter ego de uma sociedade decadente, que como numa jornada do herói, atravessa dificuldades, obstáculos, enfrenta dragões e rainhas iradas, mas que retorna dessa viagem onírica, com consciência de quem é, impondo a sua visão do mundo ao contar as suas aventuras pelo País das Maravilhas.

«(…) pôs-se a imaginar como a sua irmãzinha seria mais tarde uma mulher; e como ao longo da vida, conservaria sempre o coração terno e simples de quando era criança. Imaginou, também, como ela havia de juntar à sua volta outras crianças, que ficariam com os olhos brilhantes de entusiasmo ao ouvi-la contar tantas e tão estranhas histórias e até, talvez, quem sabe, o seu sonho de há muito no País das Maravilhas; e como compartilharia com elas todas as suas ingénuas tristezas e alegrias simples, ao recordar os seus tempos de menina e aqueles dias maravilhosos de verão».

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