«Alice no País das Maravilhas» , de Lewis Caroll

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O segundo livro mágico que aqui hoje destaco é o célebre «Alice no País das Maravilhas», de autoria de Lewis Caroll, pseudónimo de Charles Dodgen, um matemático, interessado em descobrir a lógica por detrás das coisas.

Escrito no século XIX, na Inglaterra em plena época vitoriana, em 1865, este é um livro que se analisado com rigor, se pode dizer que é muito mais sobre os adultos, do que sobre as crianças. Quando o li há cerca de dois anos atrás, percebi que de facto isso é bem verdade pela profundidade de certos aspetos que estão imbricados no texto, de forma bastante subtil.

Assim, aquilo que parece ser um conto de fadas infantil, não é mais do que uma crítica social da época, questionando os padrões sociais da aristocracia, marcados por uma rigidez de costumes e falsos moralismos. Alice ao perseguir o coelho branco que corre apressadíssimo, dizendo que está atrasado, e ao cair na sua toca está também a fugir ela de uma sociedade agonizante e em declínio, iniciando aquela que será uma viagem iniciática, num plano abstrato do inconsciente, onde vai por tudo em causa e transgredir as normas convencionais. Empreende uma aventura repleta de acontecimentos, onde vai sentir profundas transformações corporais, esticando e encolhendo consoante as necessidades do momento, deparar-se com situações inacreditáveis atravessar labirintos e conhecer personagens bizarros.

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Uma das principais questões subjacentes deste livro prende-se com a identidade e o desenvolvimento pessoal, explorando-se o modo como se pode desbravar esse território, em determinadas alturas as questões implícitas do texto, em que Alice e o próprio leitor se leva a interrogar sobre «Quem sou eu?» e «que caminho devo seguir?»

Um dos diálogos mais maravilhosos do livro que sublinha esta questão da identidade é o estabelecido entre Alice e o Gato sorridente, Cheshire,  que a faz refletir, sobre as escolhas que ela precisa fazer para se encontrar.

«- Gatinho Cheshire (…) diga-me, por favor, a partir daqui, que caminho devo seguir?

– Isso depende bastante do sítio para onde queres ir- respondeu o Gato.

– Pouco me importa para onde- disse Alice.

– Então não tem importância para que lado vais – disse o Gato.»

Trata-se de um diálogo sublime, embora simples, que nada tem de infantil, demonstrando-nos bem a profundidade deste livro, pois se não soubermos qual o caminho que queremos seguir todos os outros são válidos.

Os restantes personagens são incrivelmente criativos e ricos na sua descrição subvertendo a ordem estabelecida da sociedade vitoriana, existindo um coelho sempre atrasado, um chapeleiro maluco, uma rainha déspota que grita constantemente «cortem-lhe a cabeça» – e que seria certamente uma sátira da rainha de Inglaterra-  uma lagarta filósofa, um gato um quanto cínico, o Cheshire, entre muitas outras.

É assim uma obra que nos faz questionar sobre quem somos e o que queremos atingir, com um tom absolutamente criativo e genial, sendo Alice o alter ego de uma sociedade decadente, que como numa jornada do herói, atravessa dificuldades, obstáculos, enfrenta dragões e rainhas iradas, mas que retorna dessa viagem onírica, com consciência de quem é, impondo a sua visão do mundo ao contar as suas aventuras pelo País das Maravilhas.

«(…) pôs-se a imaginar como a sua irmãzinha seria mais tarde uma mulher; e como ao longo da vida, conservaria sempre o coração terno e simples de quando era criança. Imaginou, também, como ela havia de juntar à sua volta outras crianças, que ficariam com os olhos brilhantes de entusiasmo ao ouvi-la contar tantas e tão estranhas histórias e até, talvez, quem sabe, o seu sonho de há muito no País das Maravilhas; e como compartilharia com elas todas as suas ingénuas tristezas e alegrias simples, ao recordar os seus tempos de menina e aqueles dias maravilhosos de verão».

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