O terceiro dia

IMG_20170412_113028.jpgO terceiro dia é dedicado a outros abraços próximos, à conversa que é preciso pôr em dia com amigos que fazem parte da minha história e do meu percurso. O dia amanhece cinzento, como são os dias típicos desta cidade, com cheiro a humidade e a neblina. A temperatura desce e um casaco a mais apetece. Prolongo o passeio até à Cantareira e tenho acesso a um outro aspeto da cidade, mais calmo e tranquilo do que o agitado centro urbano, onde se pode ver o rio mais próximo da foz, enquanto se saboreia um café numa esplanada.
Passam-se três dias num ápice e é tempo de regressar, trago na bagagem uma enorme gratidão, uma energia que me percorre o corpo e me faz pensar que precisamos de paragens para carregar baterias, sair das rotinas e entregarmo-nos a atividades que nos preenchem e nos devolvem o retorno do quanto andamos a dar de nós. Regresso a Lisboa serena, com a certeza que logo que possa irei voltar…

Porto Mágico – Parte II

O segundo dia
Ao deambular pelas ruas e deixar-me levar, dei conta que o Porto tem estado mesmo a mudar. Imensas coisas novas, lojas diferentes, ambIMG_20170411_103121.jpgientes que dá vontade de invadir e ficar um pouco. Percebo que nunca tinha estado no Porto com este espírito de descoberta e de criatividade, já não sou uma turista que consome os locais para colocar um check à frente, sou uma viajante que se permite ficar nos locais o tempo suficiente para perceber um pouco sobre eles e sobretudo para os sentir. Procuro locais agradáveis, pouco apinhados neste Porto cada vez mais turístico, apenas com o fito de escrever livremente. Agora estou a viajar para escrever, em vez de andar a correr, apressada porque o tempo é sempre pouco e nos escapa, quando é escasso e há muito para fazer. Que sensação maravilhosa a de inverter as dinâmicas. Vou até aos Aliados, subo a rua de Ceuta e demoro-me no Café Ceuta, um antigo café do Porto que ainda mantém as características antigas, dos cafés da cidade, geralmente salas grandes, de tetos altos, com mesas redondas ou de madeira. Aproveito para escrever um pouco e beber um café.
Confraria Vermelha- Livraria de Mulheres
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Sigo em direcção à rua de Cedofeita e procuro a rua dos Bragas. No dia anterior informaram-me da existência de uma livraria de mulheres chamada Confraria Vermelha, situada na rua dos Bragas, nº32. Mas, quando chego até lá percebo que a mesma só abre às 13h00 e ainda são só 11 horas da manhã. Tiro umas fotografias à montra, com fotografias de mulheres escritoras e frases inspiradoras e alguns livros. Gostava de conhecer a história da mulher que teve esta ideia magnífica. Mas, o tempo não me permite voltar à loja.
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 Café Noémia da Costa Pinto
Desço novamente para a baixa e sigo para o Café Noémia da Costa Pinto. Um espaço agradável localizado na rua Formosa, nº386, no primeiro andar. Quando se sobe as escadas de madeira e se acede ao espaço, temos a sensação de estar a viajar no tempo e de entrar na sala de estar de uma casa antiga, decorada em estilo de anos 30. Longos sofás em pele e em veludo, vermelho e verde, mesas redondas de tampo de mármore, com pés em ferro trabalhado, um aparador ao centro, em madeira, e objectos de outras épocas decoram a sala virada para a rua, bastante iluminada.
Nas traseiras possui um pequeno jardim, onde se pode tomar um café e deliciarmo-nos com os gatos que por lá andam a aproveitar o dia sossegadamente ao sol, com lânguidos movimentos de sesta e de preguiça. No andar superior existe também uma Guest House.
Por não ter praticamente ninguém antes da hora de almoço, é ideal para quem trabalha no computador, possuindo rede wi-fi disponível. Além de ser um espaço sóbrio e elegante ainda proporciona um excelente ambiente para escrever.

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Decido almoçar por aí sem pressas e aproveito para conhecer melhor Isaura Santos, uma das caras da Brands in Motion, que proporcionou a realização do workshop de escrita criativa «A Palavra Viajante», também ela pertencente ao grupo do facebook da Mad About Dreams para Mulheres Inspiradoras.
Esta mulher exala coragem e determinação pelos poros e revela-me durante a nossa conversa a paixão que sempre teve pelo mundo dos livros e das artes, considerando-se uma ativista de causas sociais e culturais. Presentemente desempenha atividades relacionadas com a organização e gestão de eventos e workshops e de networking informal na Brands in Motion. Este projecto nasceu em 2014 e tem como missão apoiar empreendedores e a criação de redes sociais que promovam sinergias entre vários parceiros.

A tarde é ocupada a frequentar um workshop «Wordpress, ferramenta para divulgar o teu objetivo» na Cidade das Profissões, com o formador Pedro Fonseca. Conheço este espaço da cidade, vocacionado para a vida profissional e o mundo do trabalho, promovido pela Câmara Municipal do Porto e aproveito para fazer esta formação (todos os workshops são gratuitos e possuem uma enorme oferta), dirigida sobretudo a empreendedores e curiosos na área dos blogs. Consolido conhecimentos e fico a saber mais sobre a construção destes diários digitais. O entusiasmo do formador é contagiante.

IMG_20170411_162629.jpgFinalizado o workshop há tempo para um café e um pastel de nata no café Mercator, na Rua das Flores, que se percebe ser um antigo armazém convertido agora em café. Às segundas e quartas este espaço torna-se também o local indicado para jantar e se ouvir cantar o fado. Prolongo-me apenas o tempo necessário e apresso-me para ir até à Ribeira, pois ir ao Porto sem ir à Ribeira, é como ir a Roma e não ver o Papa.

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Na Ribeira, cada vez mais turística, deixo-me ficar a observar, com tempo e sem pressas o ambiente que me envolve. Grupos de turismo organizado circulam e misturam-se com os locais. Os guias portugueses contam resumidamente a história deste lugar emblemático, num inglês arranhado, enquanto homens da Ribeira conversam ruidosamente entoando o seu típico sotaque nortenho. Poses, flashs e selfies competem com os melhores sorrisos pelo melhor instantâneo que eternizará o momento na Ribeira. No rio, que corre sempre veloz em direcção à foz, como se tivesse pressa em chegar ao seu destino, o tráfego de barcos de cruzeiros, é intenso, atraindo cada vez mais um grande número de turistas. Da Ribeira de antigamente, a que eu recordo, já resta pouco, tonando-se numa amálgama de gentes que se apinha. Já não se vêem as crianças a mergulhar no rio, como era típico no passado.
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Há gente sentada nas esplanadas beberricando um porto gelado ou uma bebida fresca. A tarde convida a um momento de pausa, e ainda que se adivinhe, em breve, a chegada da neblina fresca, ainda se sentem quentes, os raios de sol sobre a pele. Corre um burburinho junto à margem de pessoas que se amontoam a ver o rio, alguém brinca com bolhas de sabão gigantes, enquanto dois noivos pousam para uma foto sem brilho, como se já estivessem baços e gastos, numa moldura pendurada e esquecida numa parede velha.
Subo novamente em direcção a S. Bento e dirijo-me ao hotel. Preciso de descansar antes do próximo ponto alto do dia: um círculo de mulheres para celebrar a Deusa, no espaço Shambala.

Shambala e o Círculo de Mulheres “Despertar da Deusa”  Sem-título.jpg

A Shambala localiza-se no 3º andar do nº65 da Rua da Picaria. Subo as escadas e encontro um espaço perfumado a incenso, com uma ambiência calma e serena. As mulheres vão chegando. Conhecem-se, abraçam-se com intensidade e sorriem entre elas, revelando uma cumplicidade já partilhada anteriormente. Eu observo-as enquanto forasteira na cidade e no espaço, mas sinto uma enorme vontade de comungar do mesmo espírito com elas.
Ao entrar na sala onde decorre o círculo percebo que se respira uma paz enorme. O altar montado no centro da sala, com elementos da natureza é de uma enorme beleza. Conectamo-nos a ele através daquilo que a ele emprestamos de nosso.

O tempo ali vivido afasta-nos da ditadura do relógio e do que se passa no mundo exterior, conecta-nos com um outro mundo mais profundo, em que não tememos revelar a essência do que somos perante os olhos de outras mulheres. Ali naquele momento e naquele espaço o nosso objectivo é ser e sentir o que nos define. A minha dor, é a dor da mulher que me olha e atravessa a alma, a minha luz é a luz que irradia da outra. São momentos mágicos, consagrados ao feminino, onde não existe a competição, a mesquinhez ou a inveja que muitas vezes encontramos no nosso dia-a-dia, sobretudo em muitos universos profissionais onde trabalham muitas mulheres. Enquanto a sessão decorre penso nisso, em como nós mulheres podemos tantas vezes ser tão vis umas com as outras, quando na verdade a  nossa essência é a mesma. E com muita compaixão, muita entrega, muita autenticidade, todos os problemas poderiam ser resolvidos.

Com o final da cerimónia feminina sinto-me renascida, revigorada. Aquele círculo de mulheres, funciona também como um círculo de cura, de transmutação. Saio para a rua e vislumbro no céu aquela lua cheia poderosa, que polvilha dentro de nós sementes de transformação e mudança, gerando uma enorme agitação interna.
Já é muito tarde, fico sem bateria no telemóvel, mas ainda há uma visita para fazer, uma visita importante que me permite recuar no tempo 20 anos, quando era jovem professora universitária e tinha todas as esperanças do mundo a percorrer-me as entranhas. Visito as pessoas que me acolheram nesse período. É bom revê-las, foram muito importantes para mim, para a minha história e desabrochar. Fico um curto tempo, mas aconchega-me muito o afeto com que sempre me recebem. É bom termos pessoas assim nas nossas vidas, generosas, dedicadas, de sorriso e conversa fácil.
Retomo ao hotel, exausta de tanta experiência, de tanto enriquecimento. Não há dúvidas que esta visita ao Porto tem sido mágica e um autêntico deambular de palavras e momentos. Fecho os olhos e estou em paz.

Porto mágico: Uma deambulação através das palavras viajantes – Dia 1

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Dia 1 – A chegada

Eis-me de volta ao Porto, cidade em que me tornei uma mulher independente, quando aos 23 anos, recém-licenciada em Antropologia, respondi a um concurso para professora na Faculdade de Belas Artes.
Lembro-me que nessa altura chegar à cidade foi um fascínio, era a primeira vez que estava por minha conta, fora da minha cidade e tinha uma enorme responsabilidade diante de mim: ensinar Antropologia numa universidade, quando ainda tinha tanto para aprender. Lembro-me perfeitamente do impacto que senti, quando entrei no auditório da Faculdade de Belas Artes, uma sala enorme, ainda à antiga, com cadeiras de madeira, e ter pensado: “E agora?”.
A essa experiência sucederam-se outras, procurando conhecer a cidade num curto espaço de tempo, de modo a toná-la também um pouco minha. Rapidamente dominei o nome das ruas e os itinerários dos locais mais emblemáticos, que ia assinalando numa planta da cidade do Porto que comprara na antiga livraria Sá da Costa, em Lisboa.

Voltei sempre ao Porto, de ano a ano, ou às vezes com maior intervalo de tempo, cada viagem geralmente com uma finalidade. Desta vez, percebo que o que me traz ao Porto é um objetivo bem diferente, conciliado com o propósito que tenho vindo a desenvolver no último ano: inspirar, motivar e deixar-me contagiar. Foi com essa intenção que decidi facilitar um workshop de escrita criativa, apetecia-me ir ao Porto para deixar um pouco a marca da Mad About Dreams, estimular a capacidade criativa que cada um de nós tem ao seu alcance. Foi nesse sentido, que depois de uma pesquisa na internet descobri a Brands in Motion e a Isaura Santos,  que me proporcionou realizar esse sonho, mais um…o de fazer um workshop no Porto. O céu é mesmo o limite quando nos permitimos sonhar.
Nestes dias decidi fazer itinerários alternativos pelo Porto, que me permitissem descortinar uma outra cidade, mais criativa, inspiradora e espiritual, sobre os quais irei dar falar e sugerir para que possam descobrir.

Bar Espiga 
Foi no Bar Espiga que decorreu o workshop de escrita criativa «A Palavra viajante», da Mad About Dreams. Este espaço tem imensas potencialidades, fica situado na Rua Clemente Menéres, 65 A, mas não é algo que salte à vista, nem esteja visivelmente identificado no lado exterior. Dentro do bar existe uma pequena livraria temática sobre viagens, «Muita terra» e ao fundo possui um pequeno terraço onde se pode tomar um café ou beber um copo num ambiente mais fresco e descontraído. Além de acolher eventos e workshops, possui também uma actividade regular intitulada «Viagem ao Mundo (sem sair do sofá)», que funciona como tertúlia e estimula a conversa em torno da arte de viajar.

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Restaurante Dona Porto
Depois de um workshop que me permitiu viajar nas palavras e conhecer pessoas extremamente interessantes no bar Espiga, o jantar foi bem próximo desse local, no jardim da Cordoaria, no restaurante Dona Porto. Este simpático estabelecimento possui uma decoração interessante, repleto de pinturas e frases inspiradoras, com um ambiente sóbrio, preenchido pela musicalidade do jazz, protagonizado pelo som do trompete e adocicado pelas vozes sedutoras e quentes, como a de Diana Krall, ou Frank Sinatra, que simplesmente adoro. Para ser perfeito, o jantar foi acompanhado de uma conversa muito feminina, matando as saudades de uma jovem médica, Filipa Pinto, amante das letras e das artes, (mulher inspiradora do grupo Mad About Dreams no Facebook), que conheci num workshop de escrita criativa em Lisboa.
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Deixámo-nos levar pelas palavras, pelas conversas sobre escrita e escritores, pelos sonhos que queremos realizar, sobre o que a vida nos impulsiona a fazer. Acabamos a noite entre gargalhadas, num bar perto dos Clérigos, depois de eu pedir uma bebida ao empregado que nos serve: “ Se faz favor, para mim é um tango” , expressão que no Porto usam para uma cerveja com groselha. Ri com a forma como aquele pedido me soou ao ouvido, pois pedir um tango, geralmente sensual e libidinoso a um desconhecido, tem que se lhe diga, sobretudo porque o exercício com que rematámos o exercício de escrita terminava exactamente com uma descrição de um tango. Nada é por acaso, pensei.
Despedimo-nos e celebrámos a alegria de termos voltado a estar juntas. Sabe bem ter pessoas “sol”, assim na nossa vida.(continua)

Em modo semente…

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A Primavera chegou e aí está com toda a sua pujança. É tempo de novas esperanças, de sair do casulo do inverno, de novos começos e novos desafios. É a estação de lançar as sementes à terra, de plantar o que iremos colher futuramente.
Se queremos que as nossas plantas cresçam viçosas e bonitas, há que investir primeiro no tratamento da terra, adubá-la para a tornar fértil, escolher as sementes que queremos plantar e só depois semear.

Tal como acontece na natureza, o mesmo sucede connosco e com os nossos sonhos. Há um tempo para nos interrogarmos sobre o que queremos alcançar na vida, e um momento em que estabelecemos objetivos para realizarmos os nossos sonhos. Mas, entre um momento e outro, há um compasso de tempo em que se cuida primorosamente do que se plantou. É nessa fase que devemos trabalhar constantemente a nossa motivação, o nosso empenho, a nossa dedicação, deitando abaixo os medos e as ansiedades e sobretudo ser paciente. Tal como a terra tem de ser regada cautelosamente para que a semente germine e brote, é preciso cuidar dos nossos sonhos com carinho, atenção, foco e persistência todos os dias. Nessa altura, é importante não perder a fé e a confiança, ainda que não se vejam ainda resultados, aceitar que nada é instantâneo na nossa vida. Sempre ouvi dizer que saber esperar é uma grande virtude, por isso há alturas em que parece que nada acontece, nada evolui, nem se revela, apesar de continuarmos sistematicamente a alimentar os nossos sonhos. Este é o chamado «tempo de espera». Nem sempre o aceitamos muito bem, porque queremos tudo para ontem, sobretudo quando sabemos que estamos a dar tudo por tudo, e as situações estão a levar muito tempo para serem realizadas. Quando sentimos que estamos a atravessar um longo deserto que não há maneira de acabar, temos de aprender a lidar com esse «tempo de espera» com uma atitude positiva, paciente, aceitando que por vezes o tempo pode ser lento a manifestar-se, a colocar tudo no seu lugar.

Antes que as coisas aconteçam, pode ser necessário arrumar gavetas e arquivar situações do passado, limpar experiências que nos fizeram doer, fazer um reset e começar do zero, para que quando acontecerem nós estejamos realmente preparadas e com uma energia diferente. É por isso que não adianta muito querer que os sonhos se realizem fora do seu tempo, do seu momento, pois não seria saboreado da mesma maneira.
Por isso, não te inquietes se sentires que estás há demasiado tempo à espera, não te frustres, nem desesperes, cultiva em ti pensamentos positivos durante esse processo, acalma a mente, tudo se há-de compor na altura certa. Não sintas ansiedade porque o relacionamento que desejavas não chega, porque não consegues o emprego ou a promoção que precisas, porque ainda não é este ano que mudas de casa, ou porque o momento de engravidar ainda não chegou…entre tantos outros sonhos que podes estar à espera.Não tenhas pressa, desacelera o teu ritmo, faz as coisas que te dão prazer e preenchem, abstrai-te das pressões e não desistas, persiste, insiste todos os dias. Quando não esperares, se alimentares a semente, ela germinará e tudo ao teu redor mudará. Nesse dia, em que vires o teu sonho a brotar vais entusiasmar-te e perceber que na vida, tudo tem um “tempo perfeito”.

Se o resultado, não for bem aquele que pretendias não te deixes abater, pois os objectivos que estabelecemos muitas vezes não se atingem do modo como idealizamos para que possamos realizar outros. Os chamados percalços do percurso nem sempre são negativos, levando-nos por vezes a situações muito melhores do que as que planeámos, introduzindo nas nossas vidas momentos inusitados que se revelam extremamente interessantes. Por tudo isso, deixa-te ser semente, semeia por onde quer que vás, pois quem bem semear, melhor há-de colher. Tudo a seu tempo, no tempo certo. Boas sementeiras! Aproveitem a Primavera!