Não te rendas!

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Não te rendas

“Não te rendas, ainda estás a tempo
De alcançar e começar de novo,
Aceitar as tuas sombras,
Enterrar os teus medos,
Libertar o lastro,
Retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem
Perseguir os teus sonhos,
Destravar o tempo,
Remover os escombros,
e destapar o céu.

Não te rendas, por favor não cedas,
Mesmo que o frio queime,
Mesmo que o medo morda,
Mesmo que o sol se esconda,
E se cale o vento,
Ainda há fogo na tua alma
Ainda há vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua e teu também o desejo
Porque o quiseste e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não há feridas que não cure o tempo.

Abrir as portas,
Tirar os ferrolhos,
Abandonar as muralhas que te protegeram,
Viver a vida e aceitar o repto,
Recuperar o riso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda e estender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo,
Celebrar a vida e retomar os céus.

Não te rendas, por favor não cedas,
Mesmo que o frio queime,
Mesmo que o medo morda,
Mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
Ainda há fogo na tua alma,
Ainda há vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um começo novo,
Porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, porque eu te amo. “

MARIO BENEDETTI
traduzido por Inês Pedrosa

Foto tirada de https://chastityproject.com/2014/11/feminine-genius/
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Mergulha em ti!

mulher-de-costas-com-dorUltimamente os dias têm andado mais carregados, mais cinzentos, não só pelas condições meteorológicas que não sendo animadoras , são uma bênção para um país à beira da seca e da crise alimentar iminente, mas porque a energia tem andado mais densa, convidando-nos a um momento de mais calma, mais paciência, mais silêncio. Um tempo para cuidarmos de nós e das nossas dores, das nossas feridas e do que nos grita na alma.

Se te andas a sentir assim, deixa-me dizer-te que não és a única a ter estes sintomas, por isso reserva tempo para ti, permite-te estar onde estás e sentir o que estás a sentir. A conjuntura astral não está fácil, e embora não tenha conhecimentos suficientes de astrologia sei que a entrada de Saturno em Capricórnio nos veio fazer “entrar nos eixos” e deixar a brincadeira, “agora é ou vai ou racha”, vamos ter de parar de adiar decisões e tomar ação e controlo da nossa vida, ou a bem ou a mal.

Por isso este período pede-nos também desapego, fechamento de ciclos, desprendimento, seja em relação a situações ou pessoas na nossa vida, relacionamentos, ou mesmo a nossa forma de nos relacionarmos, os nossos sistemas de crenças e o nosso propósito de vida.

É tempo de soltar, abandonar, libertar, abraçar o novo para nos renovarmos. Clarificar as ilusões e abraçar a realidade por mais dolorosa que possa ser, pois é sempre preferível a consciência tranquila da verdade do que ser sustentada pela fantasia irreal. Por isso temos de abdicar da nossa zona de conforto, dos contos de fadas, dos mitos que criámos e acreditámos e passar a viver no mundo real. E por isso esta tensão entre a realidade dolorosa e a ilusão que criámos nos faz parecer que vivemos numa eterna montanha russa de emoções. É tempo de crescer!

Este processo de renovação que nos faz abraçar o abismo interno e a sensação de nos sentirmos perdidos pede-nos coragem para aceitar a nossa vulnerabilidade, o nosso propósito de alma. Se escolhermos enfiar a cabeça na areia, adiamos o nosso processo evolutivo, paramos, escondemo-nos e resistimos e como tal iremos continuar a viver as mesmas coisas. É preciso mesmo uma grande valentia da nossa parte para vivermos a verdade. Mas nós somos super-heróis…nós conseguimos!

Por isso é natural que o momento presente traga algumas lágrimas, algum desespero, porque nos é desconfortável mudar e é necessário confrontar as nossas sombras, os nossos medos e fragilidades e ver este período como uma nova oportunidade no nosso percurso.

Por isso se te sentes assim, dialoga com a tua dor, não a coloques debaixo do tapete, entende-a, procura um terapeuta se perceberes que não consegues curar-te sozinha. Aceita a luz que vem dessa dor, esse recolhimento necessário. Abraça a nudez da tua alma, expõe-te ao vazio redentor, atravessa esse deserto para ganhares novas forças e venceres o teu próprio combate.

Nada é fácil, este momento também não está a ser para muitos de nós, mas há esperança de dias melhores, mais coloridos, amenos e confiantes. Ama-te com carinho, respeita-te a ti e aos outros, cresce e evolui ao teu ritmo, nutre-te com afeto, expande o teu amor por todos e solta as amarras que te prendem e que te seguram. Mergulha em ti!

Ana Machado

Sonhar é…

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Sonhar é planar por cima das nuvens à procura de momentos inesquecíveis, como se pudéssemos voar e não houvesse nunca impossíveis. É acreditarmos que  não há limites,  caras feias, nem desmancha prazeres, é tornar a realidade algo que nos dá prazer. É fecharmos os olhos e deixarmos toda a energia de felicidade percorrer o nosso corpo numa corrente de ânimo e bem estar. É viajarmos muito sem cansar, percorrermos o mundo, saltar, dançar, subir montanhas, templos e monumentos sempre em movimento, e sentir-nos sedentos de cada momento. É ouvirmos uma sonoridade que contagia, é sentirmos os cheiros e os odores, o contacto da terra nos pés, é abraçarmos árvores milenares e cantarmos em paisagens distantes, é meditarmos à beira de um rio, sentindo a leve brisa a soprar-nos o rosto. É sentirmos o sol na pele a queimar, é tomarmos um banho no mar, é sorrirmos sem motivo e querermos sempre mais, é sentirmos os sonhos tão reais que quase conseguimos tocá-los com a ponta dos dedos.

Sonhar é acalmar a mente e deixá-la num turbilhão de vontades, é ganhar força e esquecer a tristeza, é como um balsámo para dias frios e uma corrente fresca para dias quentes. É ser insaciável e nunca descontente, é ter tanto para fazer, que nunca o fio se acaba, pois de vontade em vontade, vai-se um sonho e logo chega outro no seu lugar.

Sonhar é de todas as capacidades humanas aquela que ganha mais significado, a mais desafiante e a que permite os grandes progressos civilizacionais, pois o desejo nunca se mata e renasce em cada instante sem nunca se perder. Se não sonhasse o homem que mais haveria a fazer? O tédio, a tristeza, a mesmice dos dias encher-nos-iam de nada, e esse nada não faria com que o mundo andasse , crescesse e chegasse mais longe…

Por isso, sonha, não imponhas limites, nem obstáculos, permite-te que eles comandem a tua vida, mesmo nos dias em que nada te motiva. Nunca lhes feches a porta, ou deixes de os ouvir, eles fizeram-se para lhes darmos cor e os deixarmos exprimir.

Que sonhos trazes dentro de ti? Dá-lhes luz, carinho, amor, afeto e toda a tua determinação. Se querer é poder, arregaça as mangas e vai-te a eles… mais vale uma vida por um sonho, do que um sonho sem vida!

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O terceiro dia

IMG_20170412_113028.jpgO terceiro dia é dedicado a outros abraços próximos, à conversa que é preciso pôr em dia com amigos que fazem parte da minha história e do meu percurso. O dia amanhece cinzento, como são os dias típicos desta cidade, com cheiro a humidade e a neblina. A temperatura desce e um casaco a mais apetece. Prolongo o passeio até à Cantareira e tenho acesso a um outro aspeto da cidade, mais calmo e tranquilo do que o agitado centro urbano, onde se pode ver o rio mais próximo da foz, enquanto se saboreia um café numa esplanada.
Passam-se três dias num ápice e é tempo de regressar, trago na bagagem uma enorme gratidão, uma energia que me percorre o corpo e me faz pensar que precisamos de paragens para carregar baterias, sair das rotinas e entregarmo-nos a atividades que nos preenchem e nos devolvem o retorno do quanto andamos a dar de nós. Regresso a Lisboa serena, com a certeza que logo que possa irei voltar…

Porto Mágico – Parte II

O segundo dia
Ao deambular pelas ruas e deixar-me levar, dei conta que o Porto tem estado mesmo a mudar. Imensas coisas novas, lojas diferentes, ambIMG_20170411_103121.jpgientes que dá vontade de invadir e ficar um pouco. Percebo que nunca tinha estado no Porto com este espírito de descoberta e de criatividade, já não sou uma turista que consome os locais para colocar um check à frente, sou uma viajante que se permite ficar nos locais o tempo suficiente para perceber um pouco sobre eles e sobretudo para os sentir. Procuro locais agradáveis, pouco apinhados neste Porto cada vez mais turístico, apenas com o fito de escrever livremente. Agora estou a viajar para escrever, em vez de andar a correr, apressada porque o tempo é sempre pouco e nos escapa, quando é escasso e há muito para fazer. Que sensação maravilhosa a de inverter as dinâmicas. Vou até aos Aliados, subo a rua de Ceuta e demoro-me no Café Ceuta, um antigo café do Porto que ainda mantém as características antigas, dos cafés da cidade, geralmente salas grandes, de tetos altos, com mesas redondas ou de madeira. Aproveito para escrever um pouco e beber um café.
Confraria Vermelha- Livraria de Mulheres
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Sigo em direcção à rua de Cedofeita e procuro a rua dos Bragas. No dia anterior informaram-me da existência de uma livraria de mulheres chamada Confraria Vermelha, situada na rua dos Bragas, nº32. Mas, quando chego até lá percebo que a mesma só abre às 13h00 e ainda são só 11 horas da manhã. Tiro umas fotografias à montra, com fotografias de mulheres escritoras e frases inspiradoras e alguns livros. Gostava de conhecer a história da mulher que teve esta ideia magnífica. Mas, o tempo não me permite voltar à loja.
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 Café Noémia da Costa Pinto
Desço novamente para a baixa e sigo para o Café Noémia da Costa Pinto. Um espaço agradável localizado na rua Formosa, nº386, no primeiro andar. Quando se sobe as escadas de madeira e se acede ao espaço, temos a sensação de estar a viajar no tempo e de entrar na sala de estar de uma casa antiga, decorada em estilo de anos 30. Longos sofás em pele e em veludo, vermelho e verde, mesas redondas de tampo de mármore, com pés em ferro trabalhado, um aparador ao centro, em madeira, e objectos de outras épocas decoram a sala virada para a rua, bastante iluminada.
Nas traseiras possui um pequeno jardim, onde se pode tomar um café e deliciarmo-nos com os gatos que por lá andam a aproveitar o dia sossegadamente ao sol, com lânguidos movimentos de sesta e de preguiça. No andar superior existe também uma Guest House.
Por não ter praticamente ninguém antes da hora de almoço, é ideal para quem trabalha no computador, possuindo rede wi-fi disponível. Além de ser um espaço sóbrio e elegante ainda proporciona um excelente ambiente para escrever.

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Decido almoçar por aí sem pressas e aproveito para conhecer melhor Isaura Santos, uma das caras da Brands in Motion, que proporcionou a realização do workshop de escrita criativa «A Palavra Viajante», também ela pertencente ao grupo do facebook da Mad About Dreams para Mulheres Inspiradoras.
Esta mulher exala coragem e determinação pelos poros e revela-me durante a nossa conversa a paixão que sempre teve pelo mundo dos livros e das artes, considerando-se uma ativista de causas sociais e culturais. Presentemente desempenha atividades relacionadas com a organização e gestão de eventos e workshops e de networking informal na Brands in Motion. Este projecto nasceu em 2014 e tem como missão apoiar empreendedores e a criação de redes sociais que promovam sinergias entre vários parceiros.

A tarde é ocupada a frequentar um workshop «Wordpress, ferramenta para divulgar o teu objetivo» na Cidade das Profissões, com o formador Pedro Fonseca. Conheço este espaço da cidade, vocacionado para a vida profissional e o mundo do trabalho, promovido pela Câmara Municipal do Porto e aproveito para fazer esta formação (todos os workshops são gratuitos e possuem uma enorme oferta), dirigida sobretudo a empreendedores e curiosos na área dos blogs. Consolido conhecimentos e fico a saber mais sobre a construção destes diários digitais. O entusiasmo do formador é contagiante.

IMG_20170411_162629.jpgFinalizado o workshop há tempo para um café e um pastel de nata no café Mercator, na Rua das Flores, que se percebe ser um antigo armazém convertido agora em café. Às segundas e quartas este espaço torna-se também o local indicado para jantar e se ouvir cantar o fado. Prolongo-me apenas o tempo necessário e apresso-me para ir até à Ribeira, pois ir ao Porto sem ir à Ribeira, é como ir a Roma e não ver o Papa.

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Na Ribeira, cada vez mais turística, deixo-me ficar a observar, com tempo e sem pressas o ambiente que me envolve. Grupos de turismo organizado circulam e misturam-se com os locais. Os guias portugueses contam resumidamente a história deste lugar emblemático, num inglês arranhado, enquanto homens da Ribeira conversam ruidosamente entoando o seu típico sotaque nortenho. Poses, flashs e selfies competem com os melhores sorrisos pelo melhor instantâneo que eternizará o momento na Ribeira. No rio, que corre sempre veloz em direcção à foz, como se tivesse pressa em chegar ao seu destino, o tráfego de barcos de cruzeiros, é intenso, atraindo cada vez mais um grande número de turistas. Da Ribeira de antigamente, a que eu recordo, já resta pouco, tonando-se numa amálgama de gentes que se apinha. Já não se vêem as crianças a mergulhar no rio, como era típico no passado.
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Há gente sentada nas esplanadas beberricando um porto gelado ou uma bebida fresca. A tarde convida a um momento de pausa, e ainda que se adivinhe, em breve, a chegada da neblina fresca, ainda se sentem quentes, os raios de sol sobre a pele. Corre um burburinho junto à margem de pessoas que se amontoam a ver o rio, alguém brinca com bolhas de sabão gigantes, enquanto dois noivos pousam para uma foto sem brilho, como se já estivessem baços e gastos, numa moldura pendurada e esquecida numa parede velha.
Subo novamente em direcção a S. Bento e dirijo-me ao hotel. Preciso de descansar antes do próximo ponto alto do dia: um círculo de mulheres para celebrar a Deusa, no espaço Shambala.

Shambala e o Círculo de Mulheres “Despertar da Deusa”  Sem-título.jpg

A Shambala localiza-se no 3º andar do nº65 da Rua da Picaria. Subo as escadas e encontro um espaço perfumado a incenso, com uma ambiência calma e serena. As mulheres vão chegando. Conhecem-se, abraçam-se com intensidade e sorriem entre elas, revelando uma cumplicidade já partilhada anteriormente. Eu observo-as enquanto forasteira na cidade e no espaço, mas sinto uma enorme vontade de comungar do mesmo espírito com elas.
Ao entrar na sala onde decorre o círculo percebo que se respira uma paz enorme. O altar montado no centro da sala, com elementos da natureza é de uma enorme beleza. Conectamo-nos a ele através daquilo que a ele emprestamos de nosso.

O tempo ali vivido afasta-nos da ditadura do relógio e do que se passa no mundo exterior, conecta-nos com um outro mundo mais profundo, em que não tememos revelar a essência do que somos perante os olhos de outras mulheres. Ali naquele momento e naquele espaço o nosso objectivo é ser e sentir o que nos define. A minha dor, é a dor da mulher que me olha e atravessa a alma, a minha luz é a luz que irradia da outra. São momentos mágicos, consagrados ao feminino, onde não existe a competição, a mesquinhez ou a inveja que muitas vezes encontramos no nosso dia-a-dia, sobretudo em muitos universos profissionais onde trabalham muitas mulheres. Enquanto a sessão decorre penso nisso, em como nós mulheres podemos tantas vezes ser tão vis umas com as outras, quando na verdade a  nossa essência é a mesma. E com muita compaixão, muita entrega, muita autenticidade, todos os problemas poderiam ser resolvidos.

Com o final da cerimónia feminina sinto-me renascida, revigorada. Aquele círculo de mulheres, funciona também como um círculo de cura, de transmutação. Saio para a rua e vislumbro no céu aquela lua cheia poderosa, que polvilha dentro de nós sementes de transformação e mudança, gerando uma enorme agitação interna.
Já é muito tarde, fico sem bateria no telemóvel, mas ainda há uma visita para fazer, uma visita importante que me permite recuar no tempo 20 anos, quando era jovem professora universitária e tinha todas as esperanças do mundo a percorrer-me as entranhas. Visito as pessoas que me acolheram nesse período. É bom revê-las, foram muito importantes para mim, para a minha história e desabrochar. Fico um curto tempo, mas aconchega-me muito o afeto com que sempre me recebem. É bom termos pessoas assim nas nossas vidas, generosas, dedicadas, de sorriso e conversa fácil.
Retomo ao hotel, exausta de tanta experiência, de tanto enriquecimento. Não há dúvidas que esta visita ao Porto tem sido mágica e um autêntico deambular de palavras e momentos. Fecho os olhos e estou em paz.

Porto mágico: Uma deambulação através das palavras viajantes – Dia 1

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Dia 1 – A chegada

Eis-me de volta ao Porto, cidade em que me tornei uma mulher independente, quando aos 23 anos, recém-licenciada em Antropologia, respondi a um concurso para professora na Faculdade de Belas Artes.
Lembro-me que nessa altura chegar à cidade foi um fascínio, era a primeira vez que estava por minha conta, fora da minha cidade e tinha uma enorme responsabilidade diante de mim: ensinar Antropologia numa universidade, quando ainda tinha tanto para aprender. Lembro-me perfeitamente do impacto que senti, quando entrei no auditório da Faculdade de Belas Artes, uma sala enorme, ainda à antiga, com cadeiras de madeira, e ter pensado: “E agora?”.
A essa experiência sucederam-se outras, procurando conhecer a cidade num curto espaço de tempo, de modo a toná-la também um pouco minha. Rapidamente dominei o nome das ruas e os itinerários dos locais mais emblemáticos, que ia assinalando numa planta da cidade do Porto que comprara na antiga livraria Sá da Costa, em Lisboa.

Voltei sempre ao Porto, de ano a ano, ou às vezes com maior intervalo de tempo, cada viagem geralmente com uma finalidade. Desta vez, percebo que o que me traz ao Porto é um objetivo bem diferente, conciliado com o propósito que tenho vindo a desenvolver no último ano: inspirar, motivar e deixar-me contagiar. Foi com essa intenção que decidi facilitar um workshop de escrita criativa, apetecia-me ir ao Porto para deixar um pouco a marca da Mad About Dreams, estimular a capacidade criativa que cada um de nós tem ao seu alcance. Foi nesse sentido, que depois de uma pesquisa na internet descobri a Brands in Motion e a Isaura Santos,  que me proporcionou realizar esse sonho, mais um…o de fazer um workshop no Porto. O céu é mesmo o limite quando nos permitimos sonhar.
Nestes dias decidi fazer itinerários alternativos pelo Porto, que me permitissem descortinar uma outra cidade, mais criativa, inspiradora e espiritual, sobre os quais irei dar falar e sugerir para que possam descobrir.

Bar Espiga 
Foi no Bar Espiga que decorreu o workshop de escrita criativa «A Palavra viajante», da Mad About Dreams. Este espaço tem imensas potencialidades, fica situado na Rua Clemente Menéres, 65 A, mas não é algo que salte à vista, nem esteja visivelmente identificado no lado exterior. Dentro do bar existe uma pequena livraria temática sobre viagens, «Muita terra» e ao fundo possui um pequeno terraço onde se pode tomar um café ou beber um copo num ambiente mais fresco e descontraído. Além de acolher eventos e workshops, possui também uma actividade regular intitulada «Viagem ao Mundo (sem sair do sofá)», que funciona como tertúlia e estimula a conversa em torno da arte de viajar.

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Restaurante Dona Porto
Depois de um workshop que me permitiu viajar nas palavras e conhecer pessoas extremamente interessantes no bar Espiga, o jantar foi bem próximo desse local, no jardim da Cordoaria, no restaurante Dona Porto. Este simpático estabelecimento possui uma decoração interessante, repleto de pinturas e frases inspiradoras, com um ambiente sóbrio, preenchido pela musicalidade do jazz, protagonizado pelo som do trompete e adocicado pelas vozes sedutoras e quentes, como a de Diana Krall, ou Frank Sinatra, que simplesmente adoro. Para ser perfeito, o jantar foi acompanhado de uma conversa muito feminina, matando as saudades de uma jovem médica, Filipa Pinto, amante das letras e das artes, (mulher inspiradora do grupo Mad About Dreams no Facebook), que conheci num workshop de escrita criativa em Lisboa.
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Deixámo-nos levar pelas palavras, pelas conversas sobre escrita e escritores, pelos sonhos que queremos realizar, sobre o que a vida nos impulsiona a fazer. Acabamos a noite entre gargalhadas, num bar perto dos Clérigos, depois de eu pedir uma bebida ao empregado que nos serve: “ Se faz favor, para mim é um tango” , expressão que no Porto usam para uma cerveja com groselha. Ri com a forma como aquele pedido me soou ao ouvido, pois pedir um tango, geralmente sensual e libidinoso a um desconhecido, tem que se lhe diga, sobretudo porque o exercício com que rematámos o exercício de escrita terminava exactamente com uma descrição de um tango. Nada é por acaso, pensei.
Despedimo-nos e celebrámos a alegria de termos voltado a estar juntas. Sabe bem ter pessoas “sol”, assim na nossa vida.(continua)