«A Vida é bela»

Para encerrar os posts dedicados à Memória do Holocausto, deixo-vos com este excerto de um dos filmes mais belos e inspiradores sobre a II Guerra Mundial, tendo ganho  mesmo três óscares em 1997 para o melhor filme estrangeiro, melhor ator protagonista e melhor banda sonora.

Este filme conta-nos a história de Guido, um judeu italiano, interpretado por Roberto Benigni, que para proteger o seu filho e minorar os efeitos de viver num campo de concentração, inventa um jogo onde a criança julga estar a participar, introduzindo muitos momentos de humor que lhe ocultam o horror que os espera. Transmite-nos pois uma mensagem de esperança, de amor profundo entre um pai e um filho, que prefere brincar com a situação do que lhe revelar a crueldade humana e do que o ser humano é capaz de fazer, quando dominado pelos motivos da guerra e da dominação.

 

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Diário de Anne Frank

«Quando escrevo sinto um alívio, a minha dor desaparece, a coragem volta».

Anne Frank

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Ainda a propósito da evocação do dia da Memória das vítimas do Holocausto, assinalado no dia 27 de Janeiro, data em que as tropas soviéticas irromperam no campo de concentração de Auschwitz para libertar os judeus que lá se encontravam à espera da morte, gostaria de enaltecer o exemplo de coragem de uma menina, que embora não tenha sido salva, representou  a esperança e um lado mais ingénuo daqueles dias marcados pela guerra e pela barbárie, falo obviamente de Anne Frank.

Anne, nascida a 12 de junho de 1929, era uma jovem judia, oriunda de Frankfurt, que se refugiou com a sua família na Holanda para escapar às perseguições nazis, mais concretamente em Amesterdão, escondendo-se nuns anexos de um edifício comercial, juntamente com outras quatro pessoas, sendo protegidos por pessoas generosas e destemidas, como Miep Gies, Victor Kugler, Johannes Kleiman e Bep Voskuijl que garantiram a sobrevivência destes judeus durante cerca de dois anos, de 1942 a 1944.

Em agosto de 1944, a família acabara por ser denunciada aos nazis, sendo transportados para campos de concentração. Ironicamente, tanto Anne, como a sua irmã Margot Frank, acabariam por falecer, possivelmente pelas difíceis condições em que viviam, agravadas por um surto epidémico, em fevereiro de 1945, pouco tempo antes da rendição da Alemanha.diario-aberto

Mas o que fez com que esta rapariga se destacasse entre os milhões de judeus, e fizesse dela uma verdadeira referência de coragem? O ato de escrever, exorcizando os demónios que vivia, os medos que a circundavam constantemente e os perigos que a espreitavam a todo o momento. Assim, transformou a prenda que recebera aos 13 anos, o seu diário, que designa carinhosamente de “Kitty”, num registo  precioso, onde documentou num primeiro momento o seu dia a dia, os avanços das tropas alemãs, as restrições e humilhações a que os judeus estavam sujeitos, e depois já no anexo, num exercício quase diário de catarse, que lhe permitiu manter a sanidade mental, num ambiente verdadeiramente claustrofóbico e psicótico, pautado pelo medo de serem descobertos.

Através da leitura deste diário vemos uma menina a transformar-se em mulher, analisando as suas relações familiares, nomeadamente sobre a sua mãe, Edith Frank, com quem tinha uma relação tensa, típicas de uma adolescente e o amor que começa a nascer entre ela e Peter, um outro rapaz que vive no anexo.

Mas, a leitura do diário faz-nos também pensar numa menina que foi obrigada a crescer rápido demais com uma plena consciência do que se passava à sua volta:

«Quando estou deitada na minha cama, cama tão quente e confortável, enquanto as minhas queridas amigas sofrem lá fora, talvez expostas ao vento e à chuva, mortas até, sinto-me quase má. Tenho medo de pensar em todas as pessoas às quais tanta coisa me liga e ao lembrar-me de que estão entregues aos mais cruéis carrascos que a história dos homens já conheceu. E tudo isto só por serem judeus!»

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A escrita permite a Anne encontrar uma motivação acrescida para continuar a viver, sonhando vir a ser jornalista e a viver da escrita, questionando se terá mesmo talento para isso.

«Mas, agora sinto-me feliz por saber ao menos escrever. E se não tiver talento suficiente para escrever livros ou artigos de jornal, enfim sempre me restará escrever para meu próprio deleite.

Quero vir a ser alguém. Não me agrada a vida que a srª van Daan e todas essas mulheres que trabalham para, mais tarde, ninguém se lembrar delas. Além de um marido e de filhos, preciso de mais alguma coisa a que preciso de me dedicar! Quero continuar a viver depois da minha morte. E por isso estou tão grata a Deus que me deu a possibilidade de desenvolver o meu espírito e de poder escrever para exprimir o que em mim vive. Quando escrevo sinto um alívio, a minha dor desaparece, a coragem volta». In:  Diário de Anne Frank, p.265.

Estas palavras de Anne Frank são verdadeiramente impressionantes, quase arrepiantes, pois não tendo tido a ocasião de realizar o seu sonho em vida, as suas palavras ainda ecoam, tornando-se verdadeiramente imortais. Tornou-se na escritora que apenas com um diário, onde se exprimiu com a genuinidade da sua idade, fez o mundo comover-se com a sua história de vida, sendo um dos livros mais lidos e extraordinários do séc. XX.

O Diário de Anne Frank

Aconselho pois este livro a todos quantos queiram conhecer mais sobre esta Anne Frank, bem como a visitar o local onde viveu, em Amesterdão e se deixem contaminar com a sua força e jovialidade.

Dia Internacional da Lembrança do Holocausto 

Assinala-se hoje dia 27 de janeiro, o dia Internacional da lembrança das vítimas do Holocausto, do genocídio que dizimou a vida a milhões de judeus, ciganos e milhares de homossexuais durante a II Guerra Mundial.

Neste sentido, não poderia deixar de aqui fazer essa referência, pois este blogue inspirado no amuleto dos caçadores de sonhos, serve não só para atrair os sonhos mas também para espantar os pesadelos. E este foi sem dúvida um dos maiores pesadelos da humanidade.

Mas nestes próximos posts, o que se pretende não é tanto falar da desgraça vivida nesses tempos, mas antes enaltecer a coragem e o amor de algumas das personagens da guerra que se destacaram pela sua bravura e pelo seu heroísmo e fibra, ou exemplos positivos dentro daquela conjuntura.

Gostaria de referenciar por isso a figura de Aristides Sousa Mendes, que foi para mim um homem de consciência e com uma moral elevada, face ao drama vivido por milhares e milhares de pessoas. Acima de tudo foi um homem que não ficou indiferente perante os problemas dos outros.

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 Ainda assim, Aristides de Sousa Mendes é um vulto da nossa história que praticamente passa desapercebido. No entanto, foi enorme a sua obra, o seu empenho na defesa de vidas humanas, o seu valor enquanto homem e português. Tudo porque teve a coragem de desobedecer ao presidente do conselho e reger-se por valores bem mais altos, o da consciência e o da compaixão. Quantos teriam arriscado, como Arisitides, perder as benesses, as honras de estado e a opulência em que os cônsules viviam, para salvar milhares de judeus, cuja sentença de morte estava ditada por Hitler nos campos de concentração. Em vez de obedecer a Salazar que tinha proibido os vistos a toda essa «gentalha», como eram apelidados, Aristides foi mais longe e como cristão devoto que era usou o bom coração que tinha para se guiar em vez das leis. Depois de transgredir e de ter salvo tanta gente da barbárie, Arisitides foi destituído do cargo, aposentado precocemente, vivia da misericórdia dos amigos e da comunidade judaica em Lisboa que o alimentava a ele e à sua numerosa família. Sofreu a humilhação de querer defender a sua honra e o seu nome em vão. O estado, apesar de cristão, nunca reconheceu no seu gesto uma ação caridosa, tratando-o como um traidor da Pátria. Anos mais tarde, depois dos tempos idos da neutralidade de Portugal, algo duvidosa, Salazar cinicamente congratulou-se de ter permitido que milhares de judeus se tivessem salvo, mas nunca absolveu Aristides de Sousa Mendes, que morreu na maior das pobrezas, abandonado um pouco por todos. Passou a ser um indesejável…tendo sido reabilitado pelo Estado Português apenas em 1987.

Mas este homem, (cujo nome foi nomeado para aquele célebre concurso dos «Grandes Portugueses» exibido na RTP, e que por ironia do destino o vencedor foi o maior ditador da história contemporânea de Portugal), foi de facto um dos nossos grandes heróis, que vale a pena recordar, pois já não há no nosso país muitos homens íntegros e de palavra, como ele.

Para quem se interesse pela vida desta personalidade tão interessante recomendo a leitura de do livro «Aristides de Sousa Mendes, um herói Português», é uma biografia escrita por José-Alain Fralon, da Editorial Presença.

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«Entusiasta, generoso e aventureiro seguiu a carreira diplomática, e encontrava-se em Bordéus num tempo em que o nazismo lançara já a sua sombra sobre a Europa e o Mundo. Multidões esperavam junto ao consulado para escapar do Holocausto. Emanavam ordens do governo português para limitar a concessão de vistos, mas Aristides assinava, dia e noite, correndo contra o tempo, obedecendo a imperativos mais altos» (palavras do autor).