Dia Internacional da Lembrança do Holocausto 

Assinala-se hoje dia 27 de janeiro, o dia Internacional da lembrança das vítimas do Holocausto, do genocídio que dizimou a vida a milhões de judeus, ciganos e milhares de homossexuais durante a II Guerra Mundial.

Neste sentido, não poderia deixar de aqui fazer essa referência, pois este blogue inspirado no amuleto dos caçadores de sonhos, serve não só para atrair os sonhos mas também para espantar os pesadelos. E este foi sem dúvida um dos maiores pesadelos da humanidade.

Mas nestes próximos posts, o que se pretende não é tanto falar da desgraça vivida nesses tempos, mas antes enaltecer a coragem e o amor de algumas das personagens da guerra que se destacaram pela sua bravura e pelo seu heroísmo e fibra, ou exemplos positivos dentro daquela conjuntura.

Gostaria de referenciar por isso a figura de Aristides Sousa Mendes, que foi para mim um homem de consciência e com uma moral elevada, face ao drama vivido por milhares e milhares de pessoas. Acima de tudo foi um homem que não ficou indiferente perante os problemas dos outros.

xla2ar

 Ainda assim, Aristides de Sousa Mendes é um vulto da nossa história que praticamente passa desapercebido. No entanto, foi enorme a sua obra, o seu empenho na defesa de vidas humanas, o seu valor enquanto homem e português. Tudo porque teve a coragem de desobedecer ao presidente do conselho e reger-se por valores bem mais altos, o da consciência e o da compaixão. Quantos teriam arriscado, como Arisitides, perder as benesses, as honras de estado e a opulência em que os cônsules viviam, para salvar milhares de judeus, cuja sentença de morte estava ditada por Hitler nos campos de concentração. Em vez de obedecer a Salazar que tinha proibido os vistos a toda essa «gentalha», como eram apelidados, Aristides foi mais longe e como cristão devoto que era usou o bom coração que tinha para se guiar em vez das leis. Depois de transgredir e de ter salvo tanta gente da barbárie, Arisitides foi destituído do cargo, aposentado precocemente, vivia da misericórdia dos amigos e da comunidade judaica em Lisboa que o alimentava a ele e à sua numerosa família. Sofreu a humilhação de querer defender a sua honra e o seu nome em vão. O estado, apesar de cristão, nunca reconheceu no seu gesto uma ação caridosa, tratando-o como um traidor da Pátria. Anos mais tarde, depois dos tempos idos da neutralidade de Portugal, algo duvidosa, Salazar cinicamente congratulou-se de ter permitido que milhares de judeus se tivessem salvo, mas nunca absolveu Aristides de Sousa Mendes, que morreu na maior das pobrezas, abandonado um pouco por todos. Passou a ser um indesejável…tendo sido reabilitado pelo Estado Português apenas em 1987.

Mas este homem, (cujo nome foi nomeado para aquele célebre concurso dos «Grandes Portugueses» exibido na RTP, e que por ironia do destino o vencedor foi o maior ditador da história contemporânea de Portugal), foi de facto um dos nossos grandes heróis, que vale a pena recordar, pois já não há no nosso país muitos homens íntegros e de palavra, como ele.

Para quem se interesse pela vida desta personalidade tão interessante recomendo a leitura de do livro «Aristides de Sousa Mendes, um herói Português», é uma biografia escrita por José-Alain Fralon, da Editorial Presença.

10360005_Aristides_de_Sousa_Mendes(RL)

«Entusiasta, generoso e aventureiro seguiu a carreira diplomática, e encontrava-se em Bordéus num tempo em que o nazismo lançara já a sua sombra sobre a Europa e o Mundo. Multidões esperavam junto ao consulado para escapar do Holocausto. Emanavam ordens do governo português para limitar a concessão de vistos, mas Aristides assinava, dia e noite, correndo contra o tempo, obedecendo a imperativos mais altos» (palavras do autor).