O meu Chiado

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Gosto de ir ao Chiado aos fins-de-semana, de deambular pelas ruas, demorar-me nas montras, entrar nas lojas, arrastar os passos pelos mesmos percursos. Encontro sempre novidades, gente conhecida, modas novas e novos espaços, lugares atrativos anunciados pelas revistas, tempo para conversas longas e divagações em torno de um café, ou um copo de vinho quente.

Cada vez que lá volto é como um regresso a casa, à aldeia que partilho com o Fernando Pessoa, que escreveu sobre o sino que se ouvia na igreja dos Mártires. Toda a gente tem uma terra natal, nas férias partem para a terra, no Natal vão à terra, eu vou ao Chiado e estou na minha terra. Uma localidade tão minha e da minha irmã, que chego a duvidar que ela seja de mais alguém, já que ao olhar as fachadas dos prédios não se vislumbram vestígios de marcas humanas permanentes. Não há roupa estendida, antenas mal se veem, as vizinhas não se caluniam à janela, nem tecem intrigas da vida alheia, é como uma morada de ninguém, onde todos se vêm passear e mostrar, mas no fim fica deserta.

A minha casa ficava numas águas furtadas nas traseiras do Grémio Literário, onde havia uma frondosa palmeira, que até a doença já minou e arrancou. Dali avistava o Tejo, a Sé e toda a baixa pombalina. Esta paisagem foi sempre o meu chão, a minha estrutura vertical, por isso insisto em voltar para amenizar o espírito e matar as saudades da cidade. Porém, já não reconheço quase nada do tempo em que lá cresci, já nada me faz lembrar o passado. As recordações e as memórias não saltam das esquinas, essas estão embalsamadas dentro de baús fechados a sete chaves, que de vez em quando revisito e abro cuidadosamente para não se perderem.

Também já ninguém ali se lembra de mim, da menina que fui a caminho da escola, de bata branca e pasta pesada às costas, à conversa com os meus amigos imaginários. Nem mesmo o senhor que encontrava todos os dias no cimo da rua, a limpar os vidros dos Armazéns “Eduardo Martins” ou a velhota que habitualmente se encontrava à porta da pastelaria “Ferrin” e me pedia todos os dias algo para comer, a quem eu dava o meu lanche e isso fazia-me sentir feliz com a boa ação praticada. A senhora da tabacaria com os seus lábios vermelhos e carnudos, que oferecia beijos e abraços sempre que me via, o dono da loja a quem eu tinha de ir cumprimentar contrariada, a mando de minha mãe. Todos eles partiram do Chiado, assim como as suas histórias e os locais que pareciam guardar.

Já não existem os armazéns do Chiado, os originais, aqueles que muitos desconhecem um dia terem existido no lugar do atual centro comercial, que arderam naquela fatídica madrugada de agosto. Já não me posso esconder na secção de confeções, debaixo das mesas compridas onde se estendiam os rolos pesados dos tecidos. A minha mãe já não me procura por lá. Também já não me distraio a descer as escadas rolantes do “Eduardo Martins” em sentido contrário, demorando-me naquela brincadeira enquanto me esperavam em casa para almoçar. O Natal no Chiado não possui a mesma magia de outrora, quando estes armazéns apresentavam nas suas montras aparatosos bonecos enfeitados com motivos de natal, que faziam as maravilhas da garotada que por lá passava.

Realmente tudo isto mudou, não só porque cresci, mas porque aquela madrugada levou parte deste passado. Lembro-me de ter acordado com estrondos nesse dia, do céu se ter tornado colorido, com clarões de fogo que pareciam a lava de um vulcão. Se não fosse tétrico e a situação tão desesperante, poderia ter sido quase bonito o efeito. Recordo-me de sair de casa com a roupa no corpo, de fugir pelas ruas escuras com a minha irmã pela mão numa cidade sem eletricidade, com o medo a guiar-me os passos, mas a esperança a dizer-me que não havia de ser nada. A nossa terra estava a arder, o fumo era intenso e o desespero enorme. Vistos da encosta do Castelo os “Grandes Armazéns do Chiado” e o “Grandella” pareciam um enorme bolo de anos repleto de velas acesas, consumidos num ápice.

O meu Chiado desde então nunca mais foi o mesmo, é certo, mas não deixa de ser o meu, um novo Chiado, onde não desfilam damas antigas, nem vendem violetas meninas de tranças pretas. Este Chiado partilho-o agora com uma horda de gente que nele vagueia, malta moderna, vanguardista, com roupas berrantes e enigmáticas, de tendências hétero e homossexuais, apoiantes de esquerda e de direita, artistas que deitam fogo da boca e vagabundos atrelados de cães. É um Chiado plural, mais cosmopolita, atual, fluído, corriqueiro e globalizado, sem as mesmas histórias e tricas de antigamente, mas ao qual tenho sempre de retornar, sem malas, nem bagagens, nem estadias prolongadas, perdendo-me entre a azáfama dos transeuntes que passam.

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